1 fevereiro, 2007

Mudei-me de Monte Azul Paulista para Catanduva, ambas neste Estado, por volta de 1946. Desnecessário dizer que, nesta idade (cinco anos), uma mudança de cidade deixa, se não traumas, ao menos alguma saudade. Principalmente porque deixávamos em Monte Azul a maior parte de nossos parentes, próximos ou nem tanto.

Mas, por arraigado sentimento de família, a saudade nunca conseguiu ser muito intensa porque, por “dá cá aquela palha”, tomávamos uma “jardineira” em Catanduva e lá íamos, toda a familia, visitar os parentes que ficaram àquela distância enorme.

Digo distância enorme porque, nos idos de 1946, as estradas do interior não tinham pavimentação e qualquer viagem virava uma aventura memorável, cheia de riscos insondáveis, que nos levavam a temer por nossas vidas durante todo o trajeto. Pelo menos, era isso que mãe e pai diziam, para que nos contivéssemos em nossos assentos discômodos e sem o charme da aventura de andar pelo corredor interno da jardineira, aos trancos e pelos barrancos.

De quando em vez, uma vaca desavisada cruzava o caminho, aturdida pela busina, e cavalos e cavaleiros e galinhas e cachorros, saídos de todos os lados dos sitios visinhos tornavam aquela aventura muito mais importante diante de nossos olhos infantis, que, aos poucos, iam descobrindo a vida

A poeira turvava nossas visões e cobria os buracos, que se multiplicavam a cada metro percorrido.

Mas tudo isso era nada… Difícil mesmo era quando chovia antes ou durante a viagem. Aí, a coisa pegava de fato. A poeira que, habitualmente, jazia comportada no chamado leito carrossável, ao contacto com os primeiros pingos de chuva transmudava-se em lamaçais, intransponíveis aos fracos motores de então. Diante de qualquer subidazinha, esticavam-se correntes junto aos pneus, saltavam todos os passageiros e lá ia a fogosa jardineira, bufando ladeira acima, que, nós, resignados, subiamos a pé, amassando barro.

Por isso, que, enquanto a gloriosa jardineira aguardava seus intrépidos passageiros, o motorista, que, na época ainda era o “chaufeur”, repetia, insitentemente, o bordão que me ficou no ouvido e na lembrança:

– “Bora, minha gente, bora que vem chuva!!!”

Daí o nome que dou ao quadro que vai abaixo, um dos meus últimos trabalhos, depois de optar por tentar o estilo “naïff”, que me dá a chance de colocar muito mais lembranças em cada trabalho.

Assim é que, numa paisagem de minha infância de destemido viajor, coloco a jardineira, a “venda de beira de estrada”, os sítios, o rio, os animais, meu cachorro “Patuá”, morto há tanto tempo, meu pai, minha mãe, meu filho, meus netinhos, alguns amigos e outras relembranças mais, que me encantam a existência, até hoje.

– “Bora que vem chuva!!!”

Bora que vem chuva

São Paulo, hoje, tanto tempo depois, aos vinte dias de dezembro de 2006.

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30 janeiro, 2007

Então…

Estava eu lá, posto em sossego. Bem visível, quase no meio do palco e ao lado do Reitor, que se sentava ao centro de semi círculo composto por meia dúzia de moleques metidos a saberetas, que haviam sido aprovados em teste para ingresso na insigne ALAEP (Academia Literária e Artística “Eduardo Prado”) do Colégio Arquidiocesano de São Paulo.

Mais de duzentas pessoas assistindo à conferência que o paraninfo, Lucas Nogueira Garcez, dublê de engenheiro e Governador do Estado de São Paulo realizava, há mais de hora-e-meia, numa noite de calor derretente e antes da entrega dos malfadados diplomas de acadêmico da ALAEP. 

Eramos todos adolescentes, cansados de um dia árduo de internato, com estudo, esporte obrigatório e todas as violências perpetradas contra a molecada que se submetia à sanha de Irmãos Maristas, enlouquecidos pelo recolhimento forçado entre os grossos muros do colégio.

Ao fim da primeira meia hora de peroração, eu já ameaçava piscar mais demoradamente do que o costume.

Ao cabo da primeira hora, minha cabeça já pendera mais de uma vez. Eu “pescava” inapelavelmente, enquanto o bendito Reitor, bondosa e envergonhadamente, teimava em acariciar meu fígado, na esperança de que eu acordasse ao amável toque de seu cotovelo esquerdo. Nada feito. O conferencista continuava citando quantidades de areia, cimento, pontes, estradas, prédios, asfalto, pedras e uma infinidade de coisas outras que eu, solenemente, ignorava para que serviam, naquela noite tão quente e sonolenta…O Tempo, entretanto, corria sem o Vento a que se referira o Érico. E nada de me entregarem o “diploma” de “acadêmico”, que jazia, impassível, sobre a mesa, em meio aos outros cinco dos “intelectualóides”, que, mais espertos, permaneciam em eterna vigília, como sempre mandaram as Escrituras.

Eu não. Eu só queria receber o maldito “deproma” e esticar-me em minha compreensiva cama, no último andar do internato, onde, noite após noite, eu penava as agruras de uma adolescência reprimida  por uma cambada de “urubus de papo branco”, que teimavam em não pensar nas necessidades que premiam cá abaixo, em minhas calças, deixando, muitas vezes,  aquele monturo de pecado mal cometido, que eu escondia a duras penas.

E tome cimento, pontes, estradas e os etcéteras todos, que eu mal ouvia, já que vinham de muuuito looonge, em meio a namoradas esfumaçadas, milk shakes espumantes ainda, à minha espera, junto com o ultimo gol de Luizinho, o pequeno polegar de meu Corinthians… E o que fazia aquele sundae de chocolate ali, acenando freneticamente para que eu me aproximasse? E minha cama? Quem a trouxera. Ó cama querida. Vou deitar-me e dormir uma centena de anos o sono dos justos.

É… mas havia um Reitor. E um cotovelo. E um fígado… E, numa hora em que, ainda disfarçadamente, o encontro do cotovelo com o fígado foi mais eloquente, meu pobre corpo sucumbiu e tombou. Tombou, sem dó nem piedade, como soem tombar os maltratados e os sonolentos. E eu me esborrachei no chão do palco, sob o aplauso e gargalhar estrondoso de cerca de duzentas pessoas, que ainda ouviam nosso competente Governador. E engenheiro.

Levantei-me incontinenti e, com toda a solenidade que um resto de sono me permitia, agradeci curvando-me até quase o chão do iluminado palco. Só que do lado contrário àquele em que estavam meus aplaudintes, a quem eu acabava de mostrar um rasgo nos fundilhos, que, com o tombo, se fizera.

Então…

Foi assim minha primeira incursão na literatura.

Algo desastrosa .

Mas, eu insisti e, quase cinquenta anos depois, eis-me novamente agarrando-me a ela.

Espero menos desastre desta vez.  

Novo blog!

26 janeiro, 2007

Seja lá o que Deus quiser!!!

Sucumbi a uma atenção especial que meu filho tem comigo: Como blogueiro experiente que ele é, convenceu-me a tentar também. E aqui está o resultado de sua peleja contra meu natural retraimento e contra meu argumento básico: “Já não tenho idade nem veleidades para escrever um blog”…Perdi a batalha. Ele fez o lay out, que eu adorei, como sempre e aqui estou, meio que desajeitado, mas com uma vontade que não acreditava existir bem aqui dentro de mim: Agora vou fazer o blog. Pô! E valha-me Deus!

Que Ele valha também a meus eventuais leitores, para que não se aborreçam muito.

Vamos lá. Do fundo de meus muitos anos de vida, vou tentar recolher fatos e trazê-los à tona. Vivi todos eles de maneira bem intensa e, dessa forma, vou tentar passá-los aos distraídos que se  aveturarem a ler-me. Se lhes servirem, usem minhas relembranças, que são mais de vocês do que minhas porque para vocês as descrevo.

E, por hoje, é suficiente: expliquei-me mais ou menos e para não cansar, paro por aqui.

V O L T A R E I.     I S T O     É     UMA   AMEAÇA  ! ! !